Instalação cearense “Bonito pra Chover” estreia em Lisboa

Obras têm participação de Levy Mota, coordenador do Laboratório de Teatro da Porto Iracema, e trazem memórias populares de chuvas e secas no sertão do Ceará

Memórias de secas e chuvas, além de questões políticas e ambientais são temas da exposição cearense “Bonito pra Chover”, que integra o Encontro Internacional sobre a Cidade, o Corpo e o Som. O evento ocorre entre os dias 15 e 20 de março em Lisboa e é organizado pelo Technologically Expanded Performance em parceria com a Universidade Federal do Ceará e a Universidade de Lisboa. A obra conta com imagens produzidas pelos fotógrafos Allan Diniz e Levy Mota, coordenador do Laboratório de Teatro da Escola Porto Iracema das Artes — instituição da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) gerida pelo Instituto Dragão do Mar (IDM).

“Bonito pra chover” foi produzido a partir da viagem realizada em 2019 com os bailarinos Fabiano Veríssimo, Márcio Medeiros e Paulo José. O percurso fez parte das atividades do Laboratório de Dança e teve como rota a linha férrea que passava pelos campos de concentração do Ceará. Durante as secas de 1915 e 1932, milhares de pessoas foram encarceradas, mantidas em péssimas condições sanitárias ou mortas.

Márcio Medeiros, bailarino e idealizador de “Bonito pra Chover” explica o processo criativo da instalação: “O projeto foi idealizado por mim e por Fabiano Veríssimo. À época estava lendo o livro do professor Gilmar de Carvalho com o mesmo nome, que trata de poéticas cearenses”, disse. A viagem gerou um grande material artístico baseado em improvisação corporal e performance poética.

Como fotógrafo, Levy Mota comenta que foi muito interessante filmar e fotografar os corpos dos bailarinos, que foi vivido um momento de experimentação durante a viagem. “Essas experimentações foram de coisas belas e delicadas a dramáticas e violentas. Tudo isso que a gente passa enquanto nordestino, enquanto cearense”, completa.

A instalação proporciona aos visitantes uma experiência imersiva para parte da história cearense. Para Levy, “é uma forma de deslocar o espectador de Lisboa para o Ceará, trazer o espectador no tempo e no espaço para Senador Pompeu de 1915 a 1932”, diz.

Além de fotografias disponíveis em monóculos e em lambe-lambe nas ruas da capital lusitana, compõem a exposição registros documentais com entrevistas e um curta-metragem premiado pela produtora “El ojo del Babel” e pelo Festival VideodanzaBa (Argentina).

Allan Diniz destaca a importância da produção que retrata a memória social cearense. “Muitos artistas e historiadores têm pesquisado e desenvolvido esse tema nos últimos anos. Acho importantíssimo, principalmente pensando nesse momento em que vivemos, com uma guinada autoritária no mundo”, avalia.

As viagens, o encontro e as conversas com o povo dessas cidades, as visitas aos sítios históricos onde foram instalados os “currais do governo”, a participação em eventos religiosos em memória dos que morreram naqueles locais, renderam material artístico e documental para a realização da exposição.

Sobre o TEPE

O projeto acontece em duas metrópoles: Lisboa em Portugal, e Fortaleza no Brasil. TEPe explora os cruzamentos bidirecionais entre arte e tecnociência, a partir do conceito agregador de performance, sobre dois vectores principais: investigação de sonoridades, e pesquisa e criação de micro-paisagens. Estes dois vectores cruzam-se a duas escalas – a do corpo e a da cidade – potenciadas através da investigação artística e tecnológica. A investigação visa estudar os modos como os corpos em movimento se inscrevem nos percursos urbanos.

Sobre os artistas

Levy Mota é mestre em Artes pela UFC (Brasil), é artista de teatro, ator e produtor. Integrante do Teatro Máquina desde 2006, grupo com o qual desenvolveu uma série de espetáculos, performances, vídeos, publicou dois livros e participou de vários festivais nacionais e internacionais, no Brasil e no exterior. Desde 2007, se dedica, também, à fotografia da cena das artes vivas, já tendo trabalhado com/para dezenas de cias de teatro, dança e circo. No audiovisual, também atua como still, câmera e editor. Desde 2020, é coordenador do Laboratório de Teatro da Escola Porto Iracema das Artes.

Allan Diniz é artista audiovisual, fotógrafo e jornalista. Mestre em Comunicação – Fotografia e Audiovisual (UFC-Brasil), especialista em Linguagens e Mídias Digitais (Uni7-Brasil) com graduação em Comunicação (Unifor-Brasil). Atua internacionalmente como profissional freelancer conectando as áreas da comunicação, artes e tecnologia por meio de trabalho e pesquisa em audiovisual e fotografia.

Sobre o projeto “Bonito pra chover”

Desenvolvido no projeto Laboratório de Dança, em 2019, este projeto realizou a montagem de um espetáculo de dança contemporânea, abordando assuntos como política, resistência, religiosidade, observação nas relações do sertanejo e o seu lugar. “Bonito pra chover” é uma imagem muito repetida pelo cearense do interior. Trata-se de quando o tempo está nublado, carregado de nuvens, avisando que a chuva virá. Essa imagem é de alguém que lê o tempo como um presságio. Um saber adquirido através das gerações na leitura do tempo.

Sobre a Escola

A Porto Iracema das Artes é a escola de formação e criação do Governo do Ceará, instituição da Secretaria da Cultura (Secult) gerida pelo Instituto Dragão do Mar (IDM). Criada em 29 de agosto de 2013, há oito anos desenvolve processos formativos nas áreas de Música, Dança, Artes Visuais, Cinema e Teatro, com a oferta de Cursos Básicos e Técnicos, além de Laboratórios de Criação. Todas as ações oferecidas são gratuitas.

Serviço

O quê? Exposição “Bonito pra Chover”

Quando? 15 a 20 de março de 2022

Onde? Encontro Internacional sobre a Cidade, o Corpo e o Som – Lisboa, Portugal.

Mais informações: https://tepe.estudiosdedanca.pt/travessias-programa

 

Assessoria de Comunicação Porto Iracema das Artes | Texto: Giselly Barata (estagiária), com supervisão e edição de Raphaelle Batista (jornalista) | Publicado em 18 de março de 2022.