Yuri Juatama: A arte como extensão de quem somos

Por Gabriela Feitosa

O Navegadores em Quarentena retorna em 2021 com o fotógrafo Yuri Juatama, autor do fotolivro “Serrinha Luz e Cores”, lançado pela Escola em abril deste ano. Juatama foi aluno do Porto durante dois anos e compartilhou um pouco de sua história

Muito mais do que uma ferramenta para investigação de si, a arte cumpre um papel de reflexão sobre a história do território onde vivemos. O artista Yuri Juatama aprendeu isso cedo, imerso nos seus projetos fotográficos no bairro onde cresceu, a Serrinha. O afeto e identificação foram tantos que dessa relação nasceu o fotolivro “Serrinha Luz e Cores”.

O lançamento da obra aconteceu em abril deste ano, no YouTube do Porto Iracema. Juatama tem passagem pela Escola em diferentes formações e, nesta nova edição do Navegadores em Quarentena, compartilha com o público sua história.

”Eu amo a fotografia. Ela é minha profissão. É o que me move. É o que me joga de um lado para outro. Me faz conhecer as pessoas e criar conexões”, relata. Se o amor pela arte é antigo, o processo de se entender e assumir como artista demorou um pouco, segundo Yuri. E o Porto Iracema das Artes tem participação nisso: ”Quando eu fui estudar no Porto Iracema, já havia tomado a decisão de trabalhar como fotógrafo, mas nem passava pela minha cabeça me tornar um artista. Acho que tudo aconteceu no momento certo. Foi no Porto onde encontrei o meu ‘eu’ artista. Transitar pelo Porto foi de extrema importância na minha trajetória, assim como tantas outras instituições públicas”, reconhece.

No seu trabalho, os debates sociais são os grandes protagonistas. O fato de morar na Serrinha, periferia da Capital, traz à tona os questionamentos. “Tenho um apego com as memórias e histórias da comunidade, por isso me encantei com a fotografia. A maioria dos meus trabalhos é voltado para o território onde vivo, na tentativa de me reconhecer e me conectar com as pessoas à minha volta’’.

O artista relembra que durante a adolescência chegou a ter vergonha do lugar onde nasceu. À medida que ia produzindo, se aproximando dos movimentos sociais e culturais do bairro, a Serrinha foi mostrando novas faces para o fotógrafo – tudo isso devidamente traduzido através da imagem: ”A gente sabe que existem problemas, mas eu prefiro pautar essa questão da beleza, da poética, da resistência e da memória”.

Em 2020, já perto do Ceará entrar em quarentena devido Covid-19, Yuri passou por outro momento divisor de águas. Ao se fotografar dentro de sua casa e observar detalhes de sua rotina que haviam passado despercebidos, o jovem se questionou: ”Como que minha casa está assim? Por que eu trabalho tanto, ralo tanto para ter visibilidade, continuar criativo e produtivo e isso não interfere no meu dia a dia?”.

Decidiu, então, reformar o lar – o que conseguiu a partir de um trabalho. Yuri encontrou beleza dentro de casa e encontrou beleza também em sua voz, ao falar mais sobre sua arte e trabalho. ”Aquilo que a gente fala é também um complemento da obra e a nossa obra é também uma extensão de quem somos. Eu sempre gostei muito de escutar, escutar, escutar. E agora estou falando”, completa.

O artista ainda dividiu conosco os novos projetos que vem planejando, como o “Acervo da Serrinha”, obra ainda embrionária, que pretende ser uma espécie de “biblioteca” da memória da comunidade. Juatama pretende garimpar fotografias antigas e relatos sobre a Serrinha com o intuito de democratizar o conhecimento sobre a história do bairro. “Eu fotografo para me conhecer e deixar um legado para a minha comunidade”, conclui.

Assista ao vídeo completo, produzido e editado pelo Núcleo de Audiovisual do Porto Iracema (Nave), com colaboração de Yuri Juatama:

Equipe de Assessoria de Comunicação do Porto Iracema das Artes | Texto: Gabriela Feitosa (estagiária) | Supervisão e edição: Raphaelle Batista | Publicado em 14/05/2021