Escola de Formação e Criação do Ceará

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Crítica: Apontamentos sobre “Refundação”

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Foto: Luiz Queirós

por Ìtalo Rui

De uma forma geral e até bem genérica, um arqueólogo é um profissional responsável por estudar e entender as culturas e o modo de vida de uma civilização, através de vestígios materiais encontrados ao longo de sua escavação. É um trabalho feito coletivamente, pensado por múltiplos profissionais e que tem como objetivo conectar o passado com o presente. É um trabalho que se pauta a partir de evidências materiais e na busca por entender as dinâmicas de vida de um povo. Fazendo uma rápida pesquisa na internet, essa é a descrição dada pelo profissional que deseja atuar na arqueologia. 

Trago essa breve descrição como ponto de partida para fazer alguns apontamentos acerca do trabalho “Refundação: escavações cênicas para refundar uma nação”, apresentado no dia 18 de abril no espaço ECOA (Escola de Cultura, Comunicação, Ofícios e Artes) na cidade de Sobral e que finalizou as apresentações de Teatro da 11ª MOPI.

Começo ou aquilo que deu start para a pesquisa…

O ponto de partida do trabalho, que teve tutoria e direção de Jander Alcântara e foi apresentado pelas atrizes e performers Dayane Rodrigues e Kézia Vasconcelos, são as seguintes perguntas: no ato da escavação de memórias pessoais, o que pode ser encontrado? As escavações pessoais e as escavações de seus ancestrais podem trazer à tona uma ideia de nação? A partir dessas duas perguntas, as artistas mobilizam as cenas tentando encontrar respostas para saná-las ou até mesmo, ampliá-las.

É através da explicação da função de um arqueólogo que as artistas, em especial Kézia Vasconcelos, tentam fazer uma espécie de link, ou até mesmo um conectivo com o que irão elaborar em cena. Me parece que a Kézia é quase narradora. Pega uma caixa e dentro dela retira imagens de sua avó. Elabora toda a sua fala atravessada pelas experiências de uma mulher que foi importante para ela. Só não consigo entender porque estamos tão distantes de um material que é pessoal e importante para a artista. Não enxergo as imagens coladas na parede. Queria estar mais próximo para visualizar o que são essas pregnâncias e esses marcadores na vida dela. Ela faz uma costura entre sua história de vida, suas influências na infância, em especial a sua avó e faz um paralelo dessas vivências com a cidade de Sobral e a influência de mulheres fortes no imaginário da cidade.

Interlúdio cênico…

Imagem poderosa de Dayane Rodrigues, vestida com muitas camadas de roupa, entrando em cena e dançando pelo espaço de atuação. Não sei destacar exatamente quantas peças de roupas são, nem o tipo de tecido, mas são de texturas, cores, cortes e visualidades distintas, que formam uma imagem quase que alegórica de algum personagem da cultura popular. Não vemos seu rosto, só um corpo que dança, uma entidade dançante. Ao longo da dança, ela vai, aos poucos, retirando peça por peça. Desmontando esse corpo e se revelando. Esse é um dos pontos altos do trabalho. 

Assim que se revela, Dayane apanha peça por peça e descreve para o público a história por detrás desses tecidos-memória. Seja seu primeiro figurino como arte educadora, ou como dançarina em um trabalho dirigido por Rogênio Martins, artista importante em sua formação, até um vestido feito por sua avó, cada peça a vestiu de alguma maneira. Não só no sentido literal, mas ajudaram a formar e a compor a artista que é hoje.

Corte… 

Entra Kézia com uma mesa e copos de vinho, divide-os com a plateia e propõe um brinde. A mesa tem uma placa com uma mensagem clara: Uma avó pariu a nação.

Impressões…

As artistas relataram que o trabalho começou com cinco atores em cena e que no fim do processo só restaram as duas, as únicas mulheres no elenco. Percebo aqui, uma busca por encontrar um aprofundamento que direcione esta nova escavação. Tive a sensação de assistir uma abertura de processo que se adaptou à uma proposta que não era exatamente a “versão original do trabalho”. Não que o que foi apresentado seja uma cópia ou uma reprodução infiel de outra proposta. Um processo criativo tem muitas camadas e é totalmente compreensível artistas desejarem mudar as rotas daquilo que um dia impulsionou a pesquisa. No entanto, ainda percebo que a proposta de pensar nas escavações cênicas com as vivências das atrizes e suas relações com a memória de suas avós, ainda encontra-se num plano de superfície. Refundação, trata-se de uma desmontagem daquilo que motivou o processo de pesquisa do grupo, daí o link com o trabalho de um arqueólogo. As escavações referem-se não somente às memórias e vivências das artistas, mas também ao próprio percurso criativo do trabalho. Como todo trabalho em processo e em especial, este que se ampara no imaginário do arqueólogo, espero encontrar novas escavações, dessa vez mais profundas. Estaremos aqui, anotando, absorvendo e quem sabe assim, elaborando respostas para refundar uma nação.  

Ficha Técnica:

Direção e tutoria: Jander Alcântara

Elenco: Dayane Rodrigues e Kézia Vasconcelos