Escola de Formação e Criação do Ceará

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Ana Maria Maia integra tutoria da Porto Iracema das Artes e analisa o papel dos Laboratórios de Criação na formação artística

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Foto: Analice Diniz

Artista e atual curadora-chefe da Pinacoteca de São Paulo defende a acessibilidade cultural como caminho para romper barreiras invisíveis e promover pertencimento popular

 

A artista e pesquisadora Ana Maria Maia retorna a Porto Iracema das Artes para acompanhar os processos de desenvolvimento dos projetos de Artes Visuais do Laboratório de Criação da Escola — equipamento da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult CE), gerido em parceria com o Instituto Dragão do Mar (IDM). Atual curadora-chefe da Pinacoteca de São Paulo, Maia celebra o convite para integrar novamente a grade de tutoria dos Laboratórios, em sua 13ª edição.

Com trajetória consolidada desde 2013, os Laboratórios de Criação surgem a partir do apoio à execução de projetos de artistas de diversas regiões do Brasil, atuantes nas áreas de Artes Visuais, Audiovisual, Dança, Música e Teatro. O programa possibilita que os participantes desenvolvam suas propostas culturais e recebam orientação de tutores e tutoras ao longo do processo.

A experimentação é conduzida à qualificação das pesquisas por meio de orientações individuais, oficinas, palestras e masterclasses, ao longo de um período imersivo de sete meses. Além de Ana Maria Maia, a grade docente dos Laboratórios de Criação reúne 30 tutores e mentores nesta edição, entre eles Karim Aïnouz, Murilo Hauser, Maikon K, Marcelo Jeneci, Arto Lindsay e Naruna Costa.

Ao retomar a atuação como tutora, Ana Maria Maia destaca a Porto Iracema das Artes como um território de investigação contínua, fundamental para o pensamento artístico e para a formação crítica. Em entrevista concedida à Escola, a curadora reflete sobre os processos de criação, a experiência da tutoria e os atravessamentos entre arte, tempo e cidade.

Um retorno marcado pela memória e pela troca

“Intenso” e “afetivo” são os termos utilizados pela pesquisadora ao relembrar seu último ano como tutora do Laboratório de Artes Visuais, em 2014. Ao trazer à memória o período marcado pelas viagens mensais à capital cearense e pela construção de vínculos com os artistas acompanhados, o retorno representa, para ela, motivo de celebração e continuidade de um trabalho construído a partir do diálogo.

Nesta edição, Maia acompanha o projeto O Papel da Cidade, do artista Samuel Tomé, que investiga o papel como suporte, camada e presença nos espaços urbanos e artísticos da cidade.

No processo acompanhado no Laboratório, Ana Maria conta que Tomé parte de uma coleção pessoal de panfletos arrancados dos muros da cidade. Ele se transforma em colagista, combina materiais sobre superfícies de desenho e, posteriormente, converte essas imagens em pintura. Textos e imagens se deslocam, se transformam e dão corpo à pesquisa.

Ao falar sobre a função da tutoria, Ana Maria explica que o processo se desenvolve a partir do compartilhamento de referências e da escuta atenta. “A gente compartilhou leitura, compartilhou referências de obras de artistas de várias linguagens, sempre pensando nos caminhos que o trabalho dele trazia”, afirma. “Meu papel é fazer provocações, perguntas e acompanhar como ele responde a elas”, resume.

 

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Ana Maria Maia e o artista Samuel Tomé, proponente do projeto “O Papel da Cidade” | Foto: Analice Diniz

 

O papel da cidade… e do artista

Ana Maria também traz à tona o conceito temporal na arte moderna e contemporânea. Pesquisadora da área, sobretudo no recorte brasileiro e latino-americano, a artista propõe, em sua tutoria, uma reflexão ampliada sobre o que se entende sobre esse conceito.

“Quando falamos de artistas do século XIX que hoje são considerados realistas e naturalistas, na sua época eles eram os modernos e contemporâneos do seu tempo. Então, essa ideia não é uma aliança, e sim uma fricção. Trago que, atualmente, o artista tem o papel de provocar o tempo e duvidar das normas dele.”

Laboratório como espaço de risco e aprendizado

Ana Maria ressalta ainda a importância da existência de um Laboratório de Criação como o da Porto Iracema das Artes. A curadora destaca que é fundamental permitir o risco, a dúvida e a experimentação. O acompanhamento próximo dos tutores, aliado à liberdade de criação dos participantes, constrói um ambiente propício ao amadurecimento das pesquisas artísticas e à formação crítica dos artistas.

“Como todo processo, tem acertos, erros, apostas que empolgam e outras que não chegam a um lugar tão satisfatório. É por isso que a gente chama de pesquisa, é por isso que é bom ter um laboratório para fazer pesquisa”, afirma.

Rompendo os muros invisíveis

Outro eixo central de sua tutoria e trajetória profissional é a defesa da acessibilidade artística.  Ao falar sobre sua experiência na Pinacoteca de São Paulo, ela demonstra orgulho 

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ao mencionar que a instituição recebe cerca de 850 mil pessoas por ano, sendo que aproximadamente 80% desse público visita um museu pela primeira vez. Para ela, esse dado revela o poder transformador das instituições culturais brasileiras.

Mais do que oferecer experiências e repertório, Ana Maria destaca a importância de promover pertencimento. “As barreiras não são físicas, elas são simbólicas”, afirma, ao lembrar que, historicamente, muitos públicos não se sentem autorizados a ocupar os espaços culturais. Pensar exposições, livros e seminários que dialoguem com a vida das pessoas é, segundo ela, uma forma de empoderar esses públicos. “Importa o olhar delas para a arte, para a sociedade”, defende.

Esse compromisso, no entanto, exige constância. Ana Maria reconhece que não se trata de um esforço pontual, mas de um investimento contínuo, que precisa ser permanentemente pautado e reafirmado.

 

Sobre Ana Maria Maia

Ana Maria Maia (Recife, 1984) é curadora-chefe da Pinacoteca de São Paulo. Pesquisadora, curadora e professora de arte moderna e contemporânea, é doutora pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), título obtido em 2018. É autora dos livros Flávio de Carvalho (Azougue, 2014) e Arte-veículo: intervenções na mídia de massa brasileira (Circuito e Aplicação, 2015), este último vencedor da Bolsa Funarte de Estímulo à Produção Artística.

 

Sobre os Laboratórios de Criação

São espaços de experimentação, pesquisa e desenvolvimento de projetos culturais em cinco linguagens: Artes Visuais, Audiovisual, Dança, Música e Teatro. Funcionam em regime de imersão, por meio de processos formativos de excelência, desenvolvidos em torno das propostas previamente selecionadas. 

Os artistas recebem orientação de tutores e tutoras, que conduzem à qualificação dos projetos por meio de orientações individuais, além de oficinas, palestras e masterclasses pelo período de sete meses. Os laboratórios funcionam em regime de imersão, através de processos formativos de excelência, desenvolvidos em torno de propostas previamente selecionadas. Durante esse tempo, os artistas selecionados recebem ajuda de custo para que possam se dedicar integralmente ao desenvolvimento de suas propostas. Ao longo de onze edições, de 2013 a 2024, 699 artistas passaram pelos Labs e 285 projetos foram selecionados.

 

Sobre a Porto Iracema das Artes

A Porto Iracema das Artes é a escola de formação e criação em artes do Governo do Estado do Ceará, equipamento da Rede Pública de Equipamentos Culturais da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult Ceará), gerida em parceria com o Instituto Dragão do Mar (IDM). Criada em 29 de agosto de 2013, há onze anos desenvolve processos formativos nas áreas de Música, Dança, Artes Visuais, Cinema e Teatro, com a oferta de Cursos Básicos e Técnicos, além de Laboratórios de Criação. Todas as ações oferecidas são gratuitas.

 

Assessoria de Comunicação Porto Iracema das Artes | Texto: Mayra Carvalho (estagiária) | Edição e supervisão: Gabriela Dourado (jornalista) | Publicado em 28 de janeiro de 2026