Escola de Formação e Criação do Ceará

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“Conversações” por Sonia Sobral

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Este texto foi apresentado no lançamento do Laboratório de Pesquisa Teatral do Porto Iracema das Artes. Fortaleza, em julho de 2013.

 “Uma política realmente democrática deve procurar meios que não incorram na arrogância tecnocrata de pretender fazer as pessoas felizes apesar delas.”

– Pierre Bourdier

Política, Gestão e Mediação

Inicio com uma breve definição sobre política cultural e sobre gestão cultural. Eu me detenho sobre a mediação cultural e apresento o Rumos Itaú Cultural Teatro como um exemplo de política, gestão e mediação.

Políticas dizem respeito às diretrizes e ao pensamento que norteia a atuação (a visão de mundo que o Estado ou a instituição tem e que influencia a percepção sobre o que é cultura e como fazer intervenções para o seu desenvolvimento). Gestão Cultural é a forma de organizar e gerir os meios para a execução destes princípios e fins. É o modelo de que se adota para realizar os projetos. Já a Mediação é um conjunto de ações e práticas que atua na ponte entre a esfera pública e o espaço singular e pessoal e vice-versa. (livre síntese a partir da leitura dos pesquisadores de políticas culturais, os professores Alexandre Barbalho, José Marcio Barros e Albino Rubin).

Antes e acima de tudo estão os sistemas culturais. A arquitetura (política, gestão, métodos) deve partir da compreensão dos processos sociais, culturais e criativos e do respeito a eles.

A gestão já é um processo de mediação entre diretrizes, modos de execução e diálogo entre a perspectiva institucional e as subjetividades. Significa atuar no entre, na articulação e na troca.

“A mediação deve ser definida como agir com e agir entre sujeitos, contextos e situações” (da aula “Da mediação ao diálogo cultural” de José Marcio Barros).

Compartilhando das concepções do Prof. José Marcio, a mediação se configura como conexões entre ações sociais e representações. Refere-se ao espaço simbólico que articula a relação entre os sujeitos em situação de troca de informações.

Trata-se da capacidade de observar, ouvir e ativar com o objetivo de reduzir a distância entre sujeitos e objetos de sentidos.

A própria mediação é produtora de sentidos. E os mediadores (estrategistas, gestores, professores, monitores, curadores, artistas, etc.) são intermediários pelos quais os sentidos são produzidos e se tornam reconhecíveis e compreensíveis. Contudo, os sentidos também são acionados pelas obras de arte, pelos livros, pelos públicos, pelos alunos, etc.

Mediação não é apaziguamento, é crítica, reflexão, ativação de sensibilidades, aproximação, estranhamento. É convite para convivência.

Tendo como suporte essa política, gestão e mediação, criamos o Rumos Itaú Cultural Teatro.

O Programa derivou de sete edições do Próximo Ato. Encontro Internacional sobre Teatro Contemporâneo (2004 a 2010).

A política do Itaú Cultural de gerar e organizar conhecimentos sobre a arte e a cultura brasileira nos levou a direcionar o projeto para dentro do país.

Assim, a partir de 2007 e por quatro anos, debatemos o papel e o significado do teatro de grupo na produção brasileira contemporânea. Convidamos como consultores, os diretores Antonio Araujo, Maria Tendlau e Jose Fernando Azevedo para que, com o Núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural, definissem eixos de discussão a partir dos quais iniciaríamos um debate coletivo e nacional.

O objetivo era agrupar coletivos teatrais das cinco regiões do país, num exercício de reconhecimento do que havia e de como havia, a partir da discussão sobre uma forma de teatro criado e gerido em grupo, comprometido com questões de linguagem e pesquisa continuada.

Numa lógica de rede, iniciamos a implementação do projeto em âmbito nacional. Viajamos durante quatro anos fazendo encontros regionais. Reunimos 140 grupos dos 26 estados e Distrito Federal.

Os encontros se apoiaram na metodologia open space, ou espaço aberto, que organiza discussões sem pautas preestabelecidas. Os participantes que desejassem propunham temas ao coletivo. Cada um se inscrevia na discussão de seu interesse e os relatos eram compartilhados. Assim as discussões partiam das necessidades daqueles artistas, o que foi fundamental para conhecermos algumas das questões que os moviam.

Cito as mais reincidentes: sede para os grupos, relação do teatro com a sociedade ou comunidade, politicas públicas, formas de organização, convivência, processos criativo-colaborativos e problemáticas geográficas.

Além das discussões havia vivências coletivas.

Encaminhamos a discussão para a política na cena e não para a política que atendesse a categoria. O interesse maior era refletir coletivamente sobre como as formas de produção e organização desses grupos refletiam na sua produção poética. Ao refletir sobre isso, poderíamos ver não um ou outro, mas o próprio fazer do teatro de grupo. Gente, dúvidas, crises, certezas. Reconhecimentos e desconhecimentos mútuos.

Como resultado dessa experiência e aprendizado tínhamos a responsabilidade de coordenar a criação de um edital nacional para o teatro.

Sendo a mediação respostas às realidades e articulação entre sujeitos em situação de troca, a decisão foi de promover intercâmbios entre teatros de grupo de todas as regiões do Brasil, contribuindo para a articulação desses coletivos e para o desenvolvimento de pesquisa na área teatral. Apostando ainda e sobretudo no entendimento de que o processo de criação se dá no campo relacional.

Sobre esse tópico resumo conteúdo apresentado por Cecilia Almeida Salles, especialista em processo de criação, em conferência durante o Rumos Teatro. Ela nos lembra que Edgard Morin discute a natureza das interações na cultura e na criação como ações recíprocas que modificam o comportamento dos elementos envolvidos, isso supõe condições de encontro, de turbulência e se torna, em certas condições, associações, combinações, comunicação, ou seja, dão origem a fenômenos de organização.

A influência mútua gera possibilidades na rede de criação. Ao pensar a criação sob essa perspectiva, mesmo os processos individuais já são em rede. Em outras palavras, a criação se dá em meio a uma grande diversidade de interações: conversa com amigos, livros, jornal, etc. geram novas possibilidades, que podem ser levadas adiante ou não.

Nos processos que se dão na coletividade, como no teatro, a complexidade aumenta. Se pensarmos no indivíduo, mesmo ele não é uma esfera estritamente privada. Ele é distinguível mas não totalmente separável dos outros, pois identidade se constrói em relação.

Italo Calvino diz que cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos e estilos em que tudo pode ser continuamente remexido e reordenado.

Pensando assim, os processos teatrais são constituídos por sujeitos-comunidade, sujeitos-biblioteca comprometidos com uma ação geral.

Sem esquecer que essas interconexões envolvem a relação do artista com seu espaço e tempo.

As inovações do pensamento, segundo Morin, só podem ser introduzidas pela efervescência cultural. Onde há intensidade, multiplicidade de trocas, confrontos de opiniões, desvios, há um enfraquecimento dos dogmatismos e o consequente crescimento do pensamento.

Conviver em ambiente de interações explicita problemas e pluralidades. A rede pode impedir que nossas ideias fiquem emperradas nos nossos preconceitos.

A maioria das manifestações e necessidades do cidadão ainda se dá no âmbito local. A ferramenta mais produtiva para gerar ideias continua a ser um círculo de pessoas sentadas numa mesa, por exemplo.

Voltemos às subjetividades comprometidas numa mesma ação. Como se constrói o pacto relativo ao modo como o grupo vai se organizar na construção de um projeto comum? O teatro, de modo geral, lida com o potencial e as dificuldades da interação de projetos pessoais com um projeto comum.

A interatividade gera diversidade e as possibilidades levam à necessidade de fazer escolhas e tomar decisões e consequentemente ao estabelecimento de critérios internos ao processo. Fragilidades e dúvidas podem ganhar consistência ao longo do processo e se tornar critérios. A obra em construção precisa ser estudada, desenvolvida, testada, refeita e avaliada.

Trata-se de determinar princípios estéticos e éticos que direcionem as tomadas de decisão, que, por sua vez, dizem respeito à natureza da pesquisa que está sendo desenvolvida. Antonio Araujo chama isso de conceito estruturador.

E a maneira como o grupo se organiza está estreitamente relacionada aos critérios das tomadas de decisão que tornam o projeto viável.

Normalmente grupos se formam a partir de afinidades estéticas que sustentam as escolhas que constroem um espetáculo.

Sendo assim, o Rumos Teatro apostou na interação, no espaço coletivo e na criação. As inscrições deviam partir de um projeto compartilhado entre dois grupos que tivessem uma questão comum de estudo, fosse de prática artística, fosse de prática pedagógica, de reflexão teórica, etc.

Uma comissão independente escolheu 12 projetos de 24 grupos de 13 diferentes cidades. A seguir um resumo dos grupos e projetos.

O Povo em Pé (SP) e Lume (Campinas) trabalharam composição de matrizes, troca de procedimentos, treinamentos e vocabulários na cena;

Espanca! (MG) e Cia. Brasileira de Teatro (PR) criaram jogos (envio de pacotes com referências e provocações) para abrir campos de investigação mútua;

Caixa do Elefante (RS) e Pequod (RJ) aprofundaram o estudo da relação ator/objeto e da tensão entre tradição e novidades técnicas;

CiaTeatroAutônomo (RJ) e Irmãos Guimarães (DF) se debruçaram sobre pontes entre as artes visuais e a performance e investigaram “territórios afetivos”;

Clowns de Shakespeare (RN) e Oi nóis aqui traveiz (RS), pesquisaram a linguagem musical no teatro;

Erro Grupo (SC) e Cia Silenciosa (PR) discutiram aspectos da linguagem, mediações da presença, e as relações estético-políticas com a cidade.

Cia. Senhas (PR) e Núcleo Argonautas (SP) se interessaram pela relação sujeito e meio, em como trabalhar aspectos documentais e na atitude do ator diante da dramaturgia;

O Imaginário (RO) e Cia. Será o Benedito (RJ) buscaram, de um lado, narrativas dos trabalhadores no período da construção da ferrovia Madeira-Mamoré e, de outro, a oralidade do camelô carioca;

Teatro do Concreto (DF) e Magiluth (PE) abriram uma janela de criação e outra de gestão. As cidades, a manutenção do trabalho e a representação ou não representação foram os focos das ações;

Coletivo Angu de Teatro (PE) e Bagaceira (CE) partiram de um problema grave na realidade de suas cidades que é a mercantilização do corpo, inclusive infantil. Buscavam ampliar esse problema social buscando outras leituras sobre o problema;

Cia dos Atores (RJ) e Os Fofos Encenam (SP) partiram de matérias em processo para acessar o sagrado pessoal;

Teatro Experimental de Alta Floresta (MT) e Celeiro das Antas (DF) elaboraram estratégias de ação para o teatro do possível na produção artística e na manutenção de grupos.

Questões sobre projetos

A pedido do Laboratório de Pesquisa Teatral do Porto Iracema das Artes, vamos considerar questões sobre a escritura e a avaliação de um projeto.

Um projeto é avaliado pela qualidade do objetivo ou da pesquisa.

Tem de ter um bom conteúdo e ser bem apresentado.

Deve justificar sua relevância.

É avaliado pela clareza interna, ou seja, pela articulação e coerência entre as ações (o tempo de duração, as atividades relacionadas, a quem se destina etc., tudo deve fortalecer o objetivo e/ou conceito do projeto).

É avaliado ainda pela capacidade de ser levar adiante, ou seja, como se propõe desenvolvê-lo (procedimentos, metodologias, estratégias de trabalho).

O que se espera como resultado?

Esforço de pesquisa e curiosidade.

Que saia da zona de conforto. Que não seja elementar.

Compreensão sobre o valor estético.

Ator, diretor e colaboradores preparados técnica e conceitualmente.

A construção dramatúrgica do que está sendo levada à cena deve ir além da mensagem do tema e da reprodução de um discurso.

Comprometimento com o público.

Não se trata de pensar no inédito, mas em novas formas de propor e criar. Termino com um exemplo nesse sentido. Há vários museus sobre o Holocausto, na Alemanha, em Israel, nos Estados Unidos, entre outros.

Temos uma representação dos horrores dos campos de concentração através de imagens como, uniformes listrados, corpos cadavéricos, montes de sapatos, cabelos, malas, etc. O curador do mais novo museu do holocausto, em Jerusalém, o Yad Vashen, nos retrata a tragédia de forma completamente diferente. Ao entrar no museu as pessoas se deparam com o nada, ou melhor, com um imenso vazio a simbolizar o extermínio de milhões de pessoas. Em lugar de objetos, a metáfora do desaparecimento. Sente-se o peso do grande espaço, a densidade do oco. A história é a mesma, mas a forma de dizê-la é singular.

Sonia Sobral

Gerente de Artes Cênicas do Itaú Cultural

Nota

O Itaú Cultural publicou Próximo Ato: Teatro de Grupo, sobre os quatro anos do projeto e Encontros, sobre os resultados do Rumos Teatro. Os livros serão enviados para a biblioteca do Laboratório de Pesquisa Teatral.